quarta-feira, outubro 06, 2010

"Just dance"

Olá, classe!



O tema do meu post de Outubro estava definido há algumas semanas já...e tem a ver diretamente com alguns pequenos abacaxis que eu tenho descascado todos os dias por aqui. Falar sobre a educação das crianças americanas é um negócio meio genérico, e sempre cai no chavão auperiano "ah, as kids são mimadas, têm tudo na hora que querem, bem coisa de americano". Claro que há controvérias, cada família cria os filhos de um jeito, e há quintilhões de famílias nesse país miúdo que é os EUA né.

Mas é fato que esse comentário generalizador é o mais ouvido nas rodas de conversa das au pairs, e eu devo dizer que tenho vivido isso na pele. O meu caso é o seguinte: eu trabalho numa schedule fixa (seg a sex, 8h30 - 5h30), e a minha host trabalha em casa. O meu host trabalha em casa de vez em quando, mas eu só sei que ele está aqui se vejo o carro na driveway. Já a minha host sempre me lembra que está em casa, e é ai que mora o problema: o kid também lembra que a mãe está em casa.

Como o ponto aqui não é discutir o trabalho da minha host, e sim o trabalho que ela me dá, vou direcionar o assunto para outro ponto: a velha história da au pair com a stay-at-home-mom. Aquela coisa que a maioria das antigas au pairs te falava pra evitar a todo custo, e vc mesmo assim deu de ombros, do alto da sua sabedoria de caloura.

O que acontece muito por aqui é eu estar no playroom com as crianças e a host descer "para ver o que está acontecendo". Se está tudo bem, fica tudo mal quando ela vai embora, e se está tudo mal, fica tudo muito pior. Porque o menino vê a mãe e não entende a cronologia do dia, que diz que só é "mommy time" depoooois do "Mariana time". Pra ele, se a mãe está ali, porque raios ele não pode ficar com ela?

Mais que isso. Eu não acho que a host desconfie do meu trabalho, e ela nunca deu a entender nada parecido com isso. Mas se o menino está chorando, invariavelmente ela desce para o playroom. E considerando que eu não espanco minhas crianças, não as deixo passar fome, nem frio, e o índice de machucados é ínfimo aqui em casa, "quando o menino está chorando" pode ser subentendido como "quando o menino está fazendo manha e/ou birra". Choraminga porque quer o terceiro copo de leite seguido e eu digo que não vou dar, choraminga porque não quer ajudar a guardar os brinquedos, choraminga porque está de mal humor/ cansado/ sem dormir direito.

Como eu reajo a isso? Bem, eu diria que como qualquer pessoa que quer manter a sanidade mental até o final do ano, e mais, como meus pais reagiram comigo e com todos os meus irmãos. Simples, se eu disse que não, eu disse que não, ponto final. Se tem que recolher os brinquedos depois de brincar, então TEM que recolher os brinquedos depois de brincar, fim de papo. Quer chorar? Então senta e chora, não vou impedir.

Como a host reage a isso? Mais, como os outros hosts de que leio e ouço falar reagem a isso?
Eu costumo dizer que americano tem alergia a choro de criança. É proibido criança chorar (!) hahahaha, por isso essa ideia de que eles fazem tudo o que a criança quer.

Mas falando sério agora. Depois de revirar o Au Pair Mom noites e noites seguidas, eu achei uma pequena resposta para a reação que a gente bem conhece dos hosts. Eu diria que os americanos, em geral, educam seus filhos baseados nos seguintes princípios:

1) Choose your battles.
2) Give a YES to every NO.

O número um seria como que escolher o que você vai exigir da criança, partindo do pressuposto de que você não pode exigir tudo. Você não deveria dar o terceiro copo de leite para a criança, mas pode colocar isso como moeda de troca para que ela vá pra nap time sem reclamar. O que você escolhe, manter firme sua decisão sobre o leite ou uma criança entupida de leite, mas deitada e dormindo?

Há quem vá dizer que no Brasil a criança ainda corria o risco de ficar a semana inteira de castigo sem tomar leite se desse mais um pio sobre o assunto E se não fosse pra cama naquele exato instante. Aqui não. As regras são flexíveis, e esse "responsável" (pai, mãe, au pair, vó, professor) autoritário não existe.

Esse número um me comeu noites de sono, mas me fez mudar minha postura. Veja bem, se a mãe do menino cede quando ele pede miando pra ter alguma coisa, e eu não cedo, pra ele é muito simples: basta chorar um pouquinho mais alto que a mamãe vai vir e dar o que ele quer. Como eu evito que a mamãe apareça e me desautorize/ desmoralize na frente da criança? Simples, eu cedo primeiro. Nem deixo ele miar.

"Ah, mas você vai fazer tudo o que ele quer?" Veja bem, meu bem: eu vou fazer tudo o que os pais dele fazem, exatamente como os pais dele fazem. Eu é que não vou tentar educar um filho que não é meu, pra ele me ver como a vilã da história e complicar o meu trabalho aqui.

O "choose my battles" se resume a decidir que regras são realmente necessárias e aplicadas pelos pais da criança, e que regras são as regras que eu tive quando era criança, que fazem parte da forma como eu fui educada e que eu acho que são melhores pra criança. Todas as regras que se encaixarem na segunda opção estão banidas. Acreditem, minha vida ficou MUITO mais tranquila, e o coisinho gosta mais de mim agora que eu sou menos chata com ele. "Ah, mas ele vai ficar um nojento, mimado, insuportável". Veja bem, meu bem, de novo: ele só é problema meu durante um ano (:

(Deixo claro que eu tomei essa posição única e exclusivamente porque eu tenho a mãe da criança, que por acaso também é minha patroa, colada no meu cangote 24/7. Se, e somente se, eu ficasse sozinha com o garotinho o dia todo, ai seguir as minhas regras facilitaria muito mais a minha vida.)

O número dois é a caracerização do que a gente considera "mimar" a criança. Sabe quando sua mãe respondia "Porque não e pronto!"? Aqui tambééém não existe isso. Todo não vem acompanhado de um sim. Todo não é justificado. Todo adulto deve uma justificativa de suas decisões para a criança. E as crianças sabem e abusam disso.

Tem desde "você não pode bater em mim, mas pode me explicar porque está bravo" até "você não pode desobedecer a Mariana, mas pode comer esses cookies especiais que a mamãe comprou até se sentir melhor pra poder começar a arrumar os seus brinquedos". Sim, a primeira vez que eu ouvi isso eu entendi de fato o que significa a expressão CHOQUE cultural, e a minha vontade era sentar e chorar de desgosto, porque né...

Resumo da ópera na visão auperiana da minha situação: pouco importa a educação que os hosts dão para os filhos. Se eles mimam ou não, veja, os filhos não são meus. Por melhores que sejam as minhas intenções e ações, elas não vão funcionar na cabeça de uma criança de três anos se forem diferentes das intenções e ações da mãe. Eu não vim pra cá para me sentir desrespeitada. Muito pelo contrário: pra mim, estar longe das pessoas que eu amo já é difícil o suficiente, sem que eu precise criar mais problemas aqui. Por um ano de Sazunidos mais leve e mais feliz, eu decidi apenas dançar conforme a música.

(:


Mariana J. Guterman

14 comentários :

  1. Mari, super concordo. Minha host trabalha part time e eu nunca sei qdo ela estara aqui ou nao. Mas sei que nos dias que ela estiver, tudo muda na casa. Inferno mode ON. As regras que eu consigo estabelecer com os "NAO é NAO", ela muda, do jeito dela, sem me desrespeitar, mas muda. Ok, só mais 34 dias... hehe bjs!!

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  2. Um dos melhores posts do blog ate agora!
    Infelizmente temos que jogar com as cartas que temos na mao pra nao fazer da vida aqui um inferno!

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  3. Olha, tenho que dar os meus parabéns à autora!

    Eu sempre leio este blog, porém nunca havia comentado...
    Pelo simples fato de apenas ler já me deixar satisfeita.

    MAs hoje isso não foi o suficiente...

    E tenho que concordar com a pessoa acima, esse foi um dos posts mais interessantes e bem escritos que li até hoje.

    Logo, quero te parabenizar por isso!

    Beijos,
    Thays.

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  4. OLá!
    Adorei seu post. muito bem elaborado!!! Gosto de dividir esse tipo de informação com as au pairs. Claro q é legal saber como foi a viagme etal.. mas para nós que ainda estamos aqui.. saber isso é essencial para tentar buscar a "melhor" família!
    Acredito que qnd uma família busca uma au pair ela está disposta a esse choque cultural, tanto como a au pair. As vezes jogar só nas regras deles facilita mas e o papel 'intracultural' que deveria existir? São coisas que sonhamos que dará certo, mas que no fim, não! É tudo diferente.
    Espero que sua hostmom pare de atormentar vc no playroom e em tds as outras ocasiões! E, dica, aos poucos mostre que nossas "técnicas" também são legais. Um pouquinho de cada vez....
    Adorei vc!
    Bjss

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  5. Olá, Concordo pleanamente com a autora, o fato de pedir mil vezes pra uma criaça juntar os brinquedos e isso não acontecer me encomoda muito e me sinto uma idiota, mas realmente temos que ser mais espertas qu eles e ter sempre uma carta na manga. A final de contas educar uma criança americana a moda brasileira não é tarefa fácil. E, pra quê se dar ao trabalho?
    Eu ainda não sou Au pair, mas tomo os exemplos alheios como experiência e quero evitar uma stay home mom.
    Bjs

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  6. Mari,
    voce e' a malhor quando se trata de descrever a educacao americana.
    Nao so' um elogio ao que voce escreve, mas como tem escrito para este site, por que tem cada uma, viu...

    Eu so digo uma coisa: voce esta certissima. E eu mudei muito os meus conceitos tambem depois de tres meses aqui. A educacao deles e' diferente e nao podemos gastar toda nossa energia de vida tentando faze-los entender que no's somos melhores em educacao que eles. Afinal, eles sao primeiro mundo e no's, terceiro. Quem disse que eles vao achar que temos a razao?

    E bora empurrar um ano com a barriga e engolir os sapos e jacares necessa'rios. Tudo por uma experiencia americana. Tudo pelos fins de semana. :)

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  7. Amei seu post. Deu vontade de imprimir e reler quando uma criança teimosa ou uma mãe que mima esse pestinha começar a nos enlouquecer... Me fez repensar um bando de coisas na escolha da minha futura host family.

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  8. Otimo Mari!!!
    Nao adianta a gente tentar fazer do nosso jeito achando que e o melhor para as criancas. Elas nao sao nossas, felizmente, hehe...
    Entao vamos facilitar a nossa vidinha ne?!

    Adoro teus posts...

    Beijos!

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  9. Muito bom o post! Bom pra ter uma noção do irei enfrentar daqui um tempo^^
    Ainda nao vivi isso, mas concordo pq se formos do contra so irá piorar nossa vivencia lá e sermos a vilã das crianças...

    E claro, aaah os finais de semana!
    *.*

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  10. Muito bem feito o seus post, adorei, apesar de não saber o que é isso pois ainda não estou vivenciando isso, acredito que (espero que não) passarei, pois se realmente as minhas kids seguirem esse ritmo, eu também reagiria da mesma forma, por questão de cultura e etc.
    Mas agora vejo como vou ter que "driblar" isso!

    ;*

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  11. Nossa Mari! Sensacional esse post!
    Ainda não sou au pair, mas consegui visualizar os dois lados, o da au pair e o da host family. E concordo totalmente com você. De fato, temos a vontade de cuidar das crianças ensinando-as o que é certo e o que é errado. E eu faço isso o tempo o todo com as crianças que eu cuido. Quero o melhor pra elas, mas se os pais não fazem o papel deles, nós é que não podemos fazer, afinal, a referência que as crianças têm é a dos pais. Mas, também não podemos questionar a maneira com que eles criam os seus filhos, eles são os pais e nós, os "empregados". E além disso, há a questão da cultura. Mas, a sua atitude está certa. Não gaste sua energia tentando educar o filhos dos outros! Guarde-as para os seus days off ;)

    Beijos querida!

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  12. Oiii Mariana!! Gostei mto do seu post e me identifiquei horrores com ele.. pq passei exatamente por isso com a minha kid... e fiz a mesma escolha que vc! E essa de dizer nao e vir cheio de explicacoes tb foi dificil pra entender.. a minha kid na janta as vzs joga o garfo, ou leite no chao e o pai lava e da de volta! Nuuunca que eu concordaria com isso.. mas enfim... cmo vc diz.. o filho nao eh meu!!!hahaha

    Bjooooo

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  13. Excelente post!!!! O negocio eh dancar conforme a musica mesmo, fazendo aquela cara de paisagem e pensando: "calma, ja ja chega meu dia off!"

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  14. Oiee! eu tenho uma stay home mom também, mas ela é diferente de tudo q já li sobre! ela não trabalha, e o host father é piloto, então trabalha d sexta a segunda e fika em casa d terça a quinta.Eles são super organizados, em relação a tudo. se importam muito com oq eu acho. e eles querem que eu ajude a educar sim. nunca tiraram minha autoridade na frente das kids, e a gente sempre conversa sobre tdo, oq eles concordam ou não sobre alguma coisa q eu tenha feito, e se eu tenho alguma sugestão para alguma coisa que eles tenham feito. Fui muito abençoada com a minha host family!
    by the way... vc escreve mto bem! adorei seu post, e acho q se estivesse no seu lugar faria a mesma coisa, se não querem que eu ajude a educar, vou simplesmente tocar o barco...
    Prazer e abração!

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