terça-feira, março 17, 2015

a volta dos que não foram: um ano depois.

Parece que foi ontem mas um ano já se passou desde que eu terminei o meu primeiro ano como au pair... E que ano! 
Como todos sabem (e quem não sabe é só procurar nos textos antigos) a minha experiência na Holanda foi bem incrível e eu amei cada segundo, o que fez com que o retorno pra casa fosse meio difícil e turbulento.
Acho que o final de qualquer fase da vida é difícil. Foi difícil dar adeus pra minha escola do ensino médio, pro meu primeiro emprego, pra minha faculdade... Mas a gente nunca tem aquele sentimento de adeus eterno mesmo quando essas fases terminam. Porém, quando a gente está deixando pra trás o país no qual morou durante um ano, sem saber se terá alguma oportunidade de voltar e se irá reencontrar aquelas pessoas rola um sentimento mais pesado, mais dolorido. Afinal, a gente sempre pode pegar o telefone e mandar uma mensagem praquele amigo que você não vê há anos e marcar de tomar uma cerveja num barzinho do centro da cidade... Mas como faz quando a pessoa que você quer reencontrar está há um oceano de distância? 

saying goodbye ain't easy


Depois do adeus, tem o OLÁ pra todo mundo que havia ficado. Reencontrar família, amigos, dar continuidade na vida que foi deixada de lado por um ano... E enquanto eu sabia que dizer adeus pra Amsterdam seria algo muito difícil pra mim, eu nunca imaginei que dizer olá pra São Paulo poderia algo tão doloroso. É estranho revisitar lugares que já não são os mesmos, ou que ao menos não representam o mesmo. Encontrar pessoas que ao mesmo tempo em que continuam as mesmas, estão muito diferentes. Ou perceber que quem mudou não foram os lugares e as pessoas, mas sim você. E essa nova pessoa que voltou não vai conseguir simplesmente se encaixar de volta no lugar que a pessoa anterior deixou. 
Além disso, outra coisa que pega pra valer é a pressão pra ser bem sucedido. Você passou um ano fora, fala inglês fluente, ta formada na faculdade, já visitou vários lugares do mundo... Ta na hora de virar gente grande e começar a ter uma vida de gente grande! Não existem mais desculpas, you've seen it all! 

Só que a gente não sabe mais se essa vida de gente grande é o que a gente quer mesmo. 

Um intercâmbio mexe muito com a cabeça e o coração da gente. A gente descobre não só uma nova língua e ganha um carimbo novo no passaporte. A gente descobre um novo jeito de ver o mundo, descobre novas possibilidades e habilidades que nunca havia sequer imaginado. Novas paixões, novos hobbies... Novas prioridades. 
E se a gente ta curtindo esse alguém que surgiu, voltar é encarar o fantasma do antigo eu. Será que eu vou conseguir manter esse estilo de vida? Será que o novo eu é capaz de sobreviver na antiga casa? 

Eu vejo muita gente que sofre quando volta por vários motivos diferentes. Alguns acham que o Brasil é um país de merda, que nunca vai conseguir ter tudo o que tinha durante o intercâmbio. Outros se sentem deslocados. Outros deixaram algum grande amor pra trás. Outros simplesmente foram mordidos pelo travelbug e não sabem como se curar. 
E também vejo gente que não podia estar mais feliz de ir embora. Que voltar pra família e se livrar dessa vida ingrata de cuidar de criança é a melhor coisa que poderia ter acontecido. Que arranja emprego, casa, volta a estudar e parece nem lembrar direito do que foi quando estava longe. Tem gente que precisa ir pra aprender a valorizar o que tem em casa. 
Pra mim foi um pouco dos dois. Eu consegui um emprego super rápido, senti que se quisesse minha vida tinha um "rumo certo", tive tempo e dinheiro pra viajar e me divertir. Nunca fiz tantas refeições na vida como nas primeiras semanas. E menino jesus sabe que só faltei chorar de alegria quando aterrissei no Rio pela primeira vez depois de quase dois anos. 

amando muito e mais um pouco. 

Só que nem tudo são flores e a minha rotina em São Paulo estava me sufocando, quando não me matando de pouquinho em pouquinho. Eu sentia que precisava de mais, de algo além. E foi quando decidi que precisava ir embora de novo. Não por que o Brasil não seja um lugar bom (migos, pobrema sempre tem em todo lugar do mundo) mas sim por que a vida que eu levava lá estava vagarosamente acabando com o meu espírito. 
E aí eu vim pros Estados Unidos. E menino jesus e vocês que me leem todos os meses sabem que a vida aqui não tem sido das mais fáceis pra mim também. 
Mas hoje, depois de seis meses aqui, e um ano longe da Holanda eu consigo finalmente ter uma visão mais clara e calma de tudo que aconteceu nesse último ano. E aprendi algumas coisas. 
Aprendi que tomar decisões com o coração apertado não fazem meu estilo e que por mais que eu tente racionaliza-las, elas ainda vão voltar pra bite me in the ass cedo ou tarde. 
Aprendi que eu posso querer fugir dos meus problemas o quanto for... Eles continuarão os mesmos há milhas de distância. 
Aprendi que por mais ruim que uma situação possa parecer, quando eu olhar pra trás eu ainda conseguirei enxergar alguns momentos maravilhosos no meio dela. (copa do mundo, estou olhando pra você! brinks hehehe) 
Aprendi quais os tipos de sapos estou mais disposta a engolir, e de quais eu tenho que fugir a todo custo. 
Aprendi quais são as coisas que realmente importam pra mim. O que me trás felicidade genuína e o que é apenas distração. 
Aprendi que não importa o destino, o que faz a diferença são as pessoas que estão caminhando com você. 

Um ano depois tenho muito mais serenidade pra olhar pra trás e encarar o que meu ano representou de verdade. Já consigo entender que as coisas das quais eu sinto saudades eu não irei recuperar, elas só existem no meu imaginário nostálgico. Percebi que não é só mudar de país, o incomodo continuará o mesmo se não for resolvido pela raiz. Estilo e qualidade de vida hoje em dia valem muito mais pra mim que qualquer emprego bem pago, troca cultural a gente pode ter em qualquer lugar, e ouvir e escutar a voz interior faz muito bem, mas as vezes as vozes de fora falam mais alto e é ok se deixar levar por elas... 

Mas pra resumir esse final que já brisei demais eu apenas quero deixar registrado que: sempre serei eternamente grata pela experiência que tive na Holanda. Ela abriu as portas pra uma nova Isabella que sempre quis existir e nunca teve a oportunidade. 
Mas a Isabella de um ano depois está mais centrada e mais realista. Mais voltada pra ela mesma e harmonizada com o que ela quer e precisa. Amsterdam me mudou. Mas eu me mudei também. E por mais que a curto prazo parecia que eu não seria capaz de sobreviver longe daquela cidade, agora eu apenas a agradeço por ter me dado a coragem pra ser quem eu quero ser em qualquer lugar do mundo. 

É isso pessoal! Happy St Patrick's Day pra vocês, tomem muita cerveja por mim e até dia 17 do próximo mês! 

Pra finalizar: neve em Chesapeake Beach e solzinho tímido em New York. Por que os seis meses aqui também tem que ser comemorados! UHUL! 



8 comentários:

  1. Anônimo17/3/15

    Ai que texto lindo ^^

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  2. Anônimo17/3/15

    Parabéns! Amei o texto inspirador. Te desejo muita sorte por aí.

    :)

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  3. Que lindo, Isa! Adoro todos os seus textos! Muito boa sorte em tudo... Bjs

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    1. Obrigada Tere!!! Só a gente sabe como é difícil voltar né?! hahah
      Bjss!

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  4. Anônimo16/4/15

    Texto lindo e inspirador! Mas fiquei com uma dúvida: os eua estão sendo muito piores do que a holanda? em que? penso em ir pra la e agora fiquei considerando a holanda também

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    1. Cara, eu não diria OS USA É PIOR QUE A HOLANDA. São muitas coisas que ficam implícitas nessa frase e que mudam de pessoa pra pessoa.
      Em termos de experiência, a que EU tive na Holanda foi muito mais gratificante do que a que eu estou tendo nos USA até o momento. Mas isso não quer dizer que um país é melhor que o outro ou que você deve ir pra um ou outro.
      Cada um tem suas peculiaridades e diferenças do programa de au pair, vai de você ver quais são as suas prioridades e motivações e ver qual se adequaria melhor a isso...
      No meu caso a Holanda me fez muito mais feliz, mas tem muita gente que acha o contrário e nunca haverá um consenso sobre o assunto! hahaha

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