quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Bati o carro do host - TWICE.

Oi gente, feliz dia 15 pra vocês! :-)

Sem querer me justificar e já me justificando: eu nunca tive carro e só tirei carteira aos 20 anos de idade. A minha experiência no volante se resumia a ir de vez em quando para um curso que eu fazia aos sábados e de vez em nunca buscar algum parente em algum lugar perto de casa mesmo. E eu estava feliz assim, até porque morava perto de tudo e nunca realmente dependi de carro para sobreviver. 

Naturalmente quando eu resolvi ser aupair eu coloquei no application que não tinha experiência com carros e que não gostaria de dirigir para a host-family. Achava que era muita responsabilidade euzinha aqui que não dirigia no meu próprio país pegar um carro que não era meu para dirigir no país dos outros com os filhos dos outros.


Como eu estava indo pra Holanda de aupair eu nem me preocupei com isso pois na Holanda a maioria das aupairs tem bicicleta ou então faz tudo a pé mesmo. As cidades holandesas eram relativamente pequenas (se comparadas às nossas) então dava para fazer tudo caminhando. 

Eu não fui por agência. Fiz perfil em site, tirei o visto por conta própria, banquei as passagens de avião do meu bolso e fui. A host-family disse que eu não precisava dirigir pois a escola das crianças era pertinho de casa e quando eu quisesse passear tinha um ponto de ônibus na rua de cima que levava até a estação de trem mais próxima. O centro da cidade também era perto e haveria uma bicicleta na casa para eu usar se quisesse. Este foi um dos motivos que eu aceitei trabalhar com essa família.

Chegando lá, surpresaaaa: a host "esqueceu" de me contar que uma das crianças tinha necessidades especiais e ficava permanentemente  em uma cadeira de rodas (nas fotos que eles me mandaram antes de ir pra lá o menino estava sempre sentado no sofá, no chão, enfim, eu não sabia do estado de saúde dele). Imaginem o meu susto quando cheguei lá né? Me senti enganada real.

Agora tentem imaginar como eu fiquei quando a gracinha da minha host disse que eu teria que levar o menino na escola (em outra cidade) de van. Sim, porque a cadeira de rodas dele não cabia no carro normal então eles tinham uma VAN.


Eu mal sabia dirigir um carro, imagina um mini-ônibus. Pânico no caldeirão. Consegui escapar desse perrengue alegando que além disso não ter sido combinado eu não tinha carteira para dirigir veículos grandes e se eu fosse pega em alguma blitz poderia até ser deportada. Os hosts concordaram e acabaram levando o menino eles mesmos já que a host-mom não trabalhava e o que aquela diaba mais tinha era tempo livre. Saravá.

Aí vem o segundo problema: o curso de holandês que eu ia fazer era em outro estado, a mais ou menos uma hora de carro de onde eu morava, os hosts já tinham me matriculado e eu teria que dirigir o carro do host-dad pra ir pra lá duas vezes por semana a noite. Para você que dirige desde que nasceu isso é molezinha mas imagina eu: sem experiência tendo que pegar estrada de noite! Pior: era um Audi A4 enorme, novinho em folha e o host me disse "aconteça o que acontecer, não estrague as rodas do meu carro porque cada uma custou quatro mil euros". Ou seja, além de pânico eu também senti uma leve pressão.

Perguntei se eu podia ir pro curso de trem mas os hosts se recusaram a pagar a passagem e como eu precisava pegar um ônibus e depois dois trens, aquilo ia me custar metade do meu salário de aupair todo mês mesmo com o cartão de desconto. Eu não podia bancar aquilo sozinha então desisti dessa idéia. Um dia o host até me levou na minha escola para eu aprender o caminho. Enquanto ele dirigia eu tentei desesperadamente achar qualquer referência na estrada para me lembrar depois mas fiquei muito nervosa. 

Logo em uma das primeiras vezes que eu fui sozinha pro curso, assim que cheguei na escola e fui estacionar eu encostei no meio fio e o pneu simplesmente furou. WTF?????!! Pelo menos eu estava na escola e a professora ligou pro meu host do celular dela explicando em holandês o que houve. O host foi me buscar em outro carro e no dia seguinte mandou alguém trocar o pneu e devolver o Audi na casa dele. Não levei bronca mas também ninguém me perguntou como eu estava, o que aconteceu, se eu precisava de alguma coisa. E gente, eu fiquei mortinha de vergonha e bem chateada!


Uma semana depois, já voltando pra casa depois da aula, o GPS mandou entrar numa rua diferente, entrei e guess what? Tinham construído uma ponte na tal rua, esbarrei no muro bem na entradinha dessa ponte e o pneu furou de novo! Dessa vez eu estava no meio do nada, já era quase meia-noite, estava tudo escuro, não passava uma alma viva naquele lugar e eu fiquei realmente desesperada.

Para piorar a bateria do meu celular estava acabando então eu mandei SMS pro meu namorado na época e ele respondeu apenas: "cuidado para não ser estuprada".Oi?! Aí mandei SMS pro host-dad, expliquei mais ou menos onde eu deveria estar e depois de uma longa espera ele apareceu soltando fumaça pela cabeça, muito bravo MESMO, me mandou entrar no carro e ficar quieta e não falou mais comigo.

Primeiro: eu avisei que não sabia dirigir. Segundo: pedi para ir de trem e eles não deixaram. Terceiro: do que são feitas as rodas do Audi, alguém sabe? Nunca vi um negócio tão fácil de estragar em toda a minha vida! 


Fui dormir arrasada. No dia seguinte quando acordei e dei bom dia pro host, ele respondeu bravo: "bom dia nada, por sua causa eu não fui trabalhar hoje porque estou sem carro", virou as costas e me deixou no vácuo. Pelo menos eles aceitaram pagar a minha passagem de trem para a escola e eu nunca mais dirigi o carro deles.

Essa família foi muito cruel comigo. Eles me exploravam, me humilhavam, eu cuidava de três crianças difíceis, estava infeliz, os hosts viviam dizendo que não gostavam de mim e uma vez quando me recusei a esfregar a privada do banheiro da host ela me puxou pelo braço escada acima e me obrigou a limpar o banheiro todinho dela. Por essas e outras depois de três meses eu mudei de família. Sabe o que os hosts fizeram? Descobriram o telefone da minha família nova e ligaram várias vezes para eles dizendo que eu era uma péssima motorista e deveria ficar bem longe do carro deles. 


Meus hosts novos ficaram chocados e de novo eu me senti envergonhada e humilhada. Nessa casa nova eu tinha um carrinho só pra mim e os hosts me deram muito incentivo pra dirigir, sempre me elogiavam no volante e me deixaram bastante confortável. Acabei criando um pouco mais de confiança e tirando a vez que atropelei uma pomba e as duas vezes que bati em um poste o resto foi ótimo (risos).

Mas eu vou confessar uma coisa para vocês: eu fiquei tão traumatizada que nunca mais consegui dirigir de novo. Até hoje eu não dirijo, minha carteira de motorista venceu há anos e nunca nem renovei. Eu simplesmente não consigo, entro em pânico e volta na memória os hosts da primeira família gritando comigo, me humilhando e tentando convencer as pessoas de que eu não sabia dirigir e por isso eu era uma pessoa horrível.


A lição que eu tirei de tudo isso foi que a gente precisa saber respeitar os nossos limites e principalmente respeitar as limitações do outro. O que é fácil para mim pode ser difícil para você e te ridicularizar de graça por causa disso só vai atrapalhar ao invés de ajudar. 

Depois do meu ano na Holanda eu até mandei um e-mail para o presidente da Audi no Brasil relatando como eu consegui a façanha de furar dois pneus de um Audi A4 em uma semana, pois eu tinha cer-te-za que o problema era o pneu e não eu. Para a minha total surpresa, o homem respondeu rindo que não tinha nada de errado com os pneus dele e que a culpa não era minha - eu provavelmente só tive azar mesmo. Foi a primeira e única vez que eu consegui rir dessa história toda.

4 comentários :

  1. Menina to chocada! Que família louca que não tem nem amor pelos próprios filhos. Como você sabe que seu filho tem necessidades especiais e não avisa a pessoa que irá cuidar dele? Como assim entregar o filho para alguém desconhecido sem saber se a pessoa é preparada para lidar com isso? Simplesmente estou passada. E a parte do banheiro? Que Hosta mais fdp nojenta!!!! Espero que hoje as coisas estejam melhores, boas energias para você!

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  2. Realmente chocante! Leio sempre boas histórias de algumas au pairs, e acho bom também saber das coisas ruins que acontecem...afinal, é um tiro no escuro, não tem como ter certeza se vai ser legal ou não. Mesmo assim ainda sonho em viver essa experiência. Dizem que o bom de ir através de uma agência é justamente a segurança de encontrar uma boa família. Eu não tenho experiência com criança, por isso estou tentando trabalhar em alguma escolinha na minha cidade. Acho fundamental adquirir algum costume primeiro. Felicidades !!!

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    1. Pois é Jack, eu sempre lia vários blogs e me recusava a acreditar que toda aupair morava numa mansão, tinha carro zero e uma família de comercial de margarina. Eu queria saber os podres do programa de aupair, as dificuldades, os obstáculos. Por isso nos meus posts eu sou bem sincera, falo de coisas ruins que me aconteceram, de familias exploradoras que eu tive, dos perrengues que eu passei. Quero que todo mundo que esteja considerando ser aupair um dia saiba que não é este mar de rosas que as agências dizem ser, não é fácil e tem horas que a gente quer largar tudo pro alto e sair correndo hehe Um beijo!

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  3. Danusia, essa foi a pior família que eu tive com certeza! Tenho pena de todos eles!

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