quarta-feira, março 15, 2017

Au Pair na República Tcheca

Bom dia pra quem é de bom dia e boa noite pra quem é de boa noite! 

Hoje eu vou contar para vocês como eu fui parar na República Tcheca e o desastre que foi ser aupair num país sem nenhuma regulamentação para o programa, com um idioma impossível de aprender e trabalhando para uma host-mom que era mais louca que o Batman.

Vamos começar do começo: eu tinha sido aupair pela primeira vez na Holanda aonde fiquei um ano entre 2006 e 2007. Depois disso fui direto para a França. Um ano depois acabou o contrato na empresa francesa e também o meu namoro então eu voltei pro Brasil. Era a primeira vez que eu voltava pra casa em dois anos e foi super difícil me readaptar. A minha experiência na Europa tinha sido incrível e eu sentia muita saudade. Resolvi então ser aupair de novo, dessa vez em algum lugar mais exótico. Fiz perfil em um site de aupair e no final fiquei dividida entre três famílias: uma na China, uma na África do Sul e uma na República Tcheca.

Desisti da família na China porque basicamente a família queria que eu fosse pra lá ilegal. Além disso eles moravam num apartamento minúsculo, eu não teria o meu próprio quarto e dormiria no sofá da sala. Desisti da família na África com medo da violência, das doenças e de tudo que a gente escuta de ruim por lá. Uma coisa é ir de turista fazer safári e voltar pra casa uma semana depois sã e salva, outra coisa é ir de aupair sem conhecer ninguém no país. E se algo desse errado, para onde eu iria correr? Como eu já tinha ido à República Tcheca duas vezes a passeio e tinha sido amor à primeira vista, fiz o match com uma família de Praga: um casal com duas meninas de 5 e 10 anos.

A host-mom mandou um contrato por fax, onde dizia que me pagaria o curso de tcheco para estrangeiros, a passagem de avião (ida e volta), duas semanas de férias no verão e um salário em coroas tchecas equivalente a US$600 por mês se eu fizesse as refeições com a família ou US$700 por mês se eu comesse fora da casa dela. Ela estava empolgada, nunca teve aupair antes, e como na Rep.Tcheca não existe lei nem visto de aupair o combinado era ela me dar um visto de trabalho da empresa que ela era dona. Em troca eu daria aulas particulares de inglês e espanhol para alguns funcionários da empresa (mas eu também seria paga por isso.) Ela disse que se informou e eu podia ir como turista, lá ela entrava com a papelada junto comigo e a gente mudava o meu visto. O ano era 2008.

Sabe aquela história de que quando a esmola é demais o santo desconfia? Pois é, então senta que lá vem história...


Meu vôo para Praga atrasou e a host ficou me esperando no aeroporto até tarde. Ela ficou muito brava comigo, como se a culpa do atraso fosse minha. Chegando no prédio dela as crianças já estavam dormindo. A host falou que queria me apresentar pro marido dela e na sequência ele levaria as minhas malas pro meu apartamento. 

Eu não sabia disso mas teria um apartamento só pra mim no mesmo prédio da família, porém em andares diferentes. O meu apartamento era lindo, grande, tinha um terraço incrível com vista pro castelo de Praga e uma banheira enorme onde tomei muitos banhos de espuma. O prédio era um prédio comunista, herança do passado político tcheco. Era quadradão, não tinha elevador e cada apartamento tinha um tamanho diferente. Achei bem interessante isso.

Como eu já conhecia Praga eu sabia usar o metrô de lá, sabia onde passear, o que comer, o que fazer no meu tempo livre. O curso de tcheco era difícil e eu me esforcei bastante, mas é punk aprender um idioma onde cada palavra tem umas 20 letras, só tem consoante sem nenhuma vogal e as consoantes ainda tinham acento! Além disso eu me sentia muito sozinha porque além de ser a ÚNICA aupair que tinha em Praga naquela época, os tchecos são fechados para fazer amizade com estrangeiros. Tinha vezes que eu sentava sozinha no meu apartamento e chorava porque era final de semana, eu estava off e não tinha ninguém pra sair ou conversar comigo. Meu apartamento não tinha internet e a televisão não funcionava. Eu passava meu tempo off passeando sozinha na cidade, vendo seriados e filmes no meu laptop, estudando tcheco e tomando sol no terraço.


As tais aulas particulares que eu ia dar na empresa da host nunca aconteceram, ela me enrolou com a questão do visto então um dia eu fui pessoalmente na embaixada brasileira em Praga aonde fui informada que nem existia o tipo de visto que a host tinha prometido aplicar pra mim, ou seja, depois dos 3 meses do visto de turista eu estaria ilegal no país e isso eu jamais aceitaria. Para piorar, a host me fez trabalhar bem mais do que o combinado e ela tinha uma mania irritante de entrar no meu apartamento com uma chave extra quando eu não estava em casa, pegar as minhas coisas e levar pra casa dela. 

Por exemplo: um dia fui cozinhar e não achei o óleo. Depois a host contou que ela tava sem óleo em casa, aí entrou no meu apartamento, pegou o meu e "esqueceu" de devolver. Oi??! Ela também ia lá em casa quase toda noite de surpresa e eu sempre levava o maior susto porque morava sozinha, às vezes estava no banho e de repente escutava a porta abrindo. Quando falei para ela que eu não gostava disso, que ela deveria avisar antes de ir ou pelo menos tocar a campainha, ela se ofendeu e não falou comigo por uma semana. A sensação que eu tinha era que ela não confiava em mim e ficava me vigiando o tempo todo. As crianças eram legais, nunca tive nenhum problema com elas.

Um belo dia a host me disse que ia fazer a festa de aniversário da filha mais nova dela no meu apartamento porque as crianças iam fazer muita sujeira e bagunça e era melhor sujar a minha casa ao invés da dela. Me senti um lixo, tipo assim eu não valia nada, ela ia encher de criança na minha casa e depois eu ia ter que limpar e arrumar tudo. Fiquei bem chateada mas como ela era a dona do apartamento, eu não podia fazer nada.

No meu aniversário ela prometeu me levar pra jantar com a família toda num lugar bem legal mas como ela estava brava comigo por eu ter questionado as minhas horas de trabalho, toda a família me ignorou no meu aniversário fingindo não saber que dia era. De noite ela mandou um SMS dizendo que ia me levar pra jantar ali na esquina, só nós duas, pois precisávamos conversar sério.

Mal sentamos na mesa e ela disse: "temos um problema porque eu não gosto de você mas as minhas filhas gostam." Nossa, eu fiquei arrasada. Ela estava tentando me demitir no meu próprio aniversário ou era impressão minha? Comecei a chorar dizendo que estava me sentindo muito sozinha e que aquele tinha sido o pior aniversário da minha vida. Ela disse que eu poderia ficar lá até acabar meu visto de turista mas depois teria que ir embora. No dia seguinte, acho que por culpa mesmo, ela me deu de presente um voucher para ir na pedicure de um salão bem chique de Praga e dois sais de banho da Lush para usar na minha banheira. Ela não teve coragem de me entregar os presentes, pediu para uma das crianças me dar.

A gota d'água foi quando ela disse que nas minhas férias eu ia pra Croácia com as crianças e os avós para trabalhar pois os avós iam ficar jogando golfe o dia todo e alguém precisava cuidar das meninas. Falei pra ela que não, o combinado era eu ter duas semanas de férias onde eu podia fazer o que eu quisesse e que se eu fosse na Croácia trabalhar então não seria férias. Eu queria receber por isso e depois queria as duas semanas que ela me prometeu para visitar umas amigas na Moldávia e na Hungria. A host levantou, saiu e bateu a porta. Neste dia, neste exato momento, ela selou sem saber o meu destino e o dela. 

Sabe o que eu fiz? Reativei meu perfil no site de aupair, procurei família na Holanda e fui ser summer aupair de uma família holandesa por dois meses no comecinho do verão. Ia dar certinho com o meu visto de turista que durava três meses. Eu já estava em Praga há um mês e ficaria dois meses na Holanda, depois voltaria para o Brasil sem estar ilegal e com as passagens que a host já havia comprado. Era o plano perfeito.

No dia D eu liguei para um conhecido em Praga que era motorista de táxi e ele buscou as minhas malas no meu apartamento, me levou sem cobrar nada pra estação de ônibus da cidade e eu peguei um ônibus pra Holanda, em uma viagem de 24hs de duração que eu fiz muito feliz e aliviada. Tranquei meu apartamento e deixei chave dentro da caixinha de correio dos hosts. Aí mandei um SMS pra host-mom avisando que por ela não ter cumprido  o nosso contrato, por ter me tratado tão mal, por fazer coisas que eu não concordava e pela falta de privacidade na minha própria casa eu estava pedindo demissão. Também avisei onde tinha deixado a chave. A resposta dela foi bem irônica: "pode ir embora, a sua vida sempre foi um circo e vai continuar sendo." Não respondi nada, apenas deixei o chip do meu celular tcheco cair no lixo "acidentalmente", igual quando aquela velhinha do Titanic "acidentalmente" deixou o colar dela cair no mar (risos)


Moral da história: escolham sempre um lugar que vocês tenham amigos para te acolher nas emergências, contatos para te salvar dos perrengues, um idioma que você domine nem que seja só um pouco, assinem um contrato e reivindiquem os seus direitos e não aceitem migalhas. Nosso trabalho não é ser humilhada e definitivamente não saímos de tão longe para sermos maltratadas e ficarmos tristes.

E o summer aupair na Holanda, vocês querem saber como foi? Aguardem cenas dos próximos capítulos... 

2 comentários :

  1. que loucura hahahah você tem insta?

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  2. oi Ianca, tenho sim! Me manda um e-mail que eu te passo :) aupairdenovo@gmail.com

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