quinta-feira, março 16, 2017

Sobre sonhos, realizações e a escada.




Ontem eu assisti um filme lindo no netflix que conta a história de uma família indiana que se muda para o interior da França. O filme se chama The Hundred-Foot Journey (em português ficou como A 100 passos de um sonho) e vale cada minuto em frente a TV.
No começo a trama gira em torno dos contrastes culturais e dos conflitos entre a família e sua vizinha da frente. A dona do restaurante clássico francês com uma estrela michelin que não aceita que um restaurante indiano possa existir ali. 
Posteriormente o filme foca na carreira meteórica do jovem chef da família indiana, Hassan.Hassan tem um talento nato pra cozinha e é apaixonado pelas especiarias da culinária indiana. Mas ele também quer aprender a clássica culinária francesa, ele quer desenvolver as técnicas necessárias pra ser um chef profissional. Ele quer ser aceito pela sociedade francesa e ser reconhecido como um igual. Não quer ser rotulado como um bom chef indiano de um restaurante indiano, ele quer ser um chef exepcional. E ele consegue.

Mas no momento em que todos seriam felizes para sempre o filme veio e me supreendeu. Hassan conseguiu o que ele queria. Ele é um chef estrelado cozinhando em um dos melhores restaurantes de Paris mas ele não é feliz para sempre.

Ele atingiu o ápice dos seus dons culinários, estampando a capa das revistas e criando pratos incríveis. Mas quando o restaurante fecha ele continua lá, sozinho com sua garrafa de vinho. O filme capta e expressa de uma maneira tão clara como é a vida de alguém que, embora seja aparentemente funcional está sofrendo de depressão. Na noite de reveillon ele passa por uma multidão vendo os fogos, todos estão felizes, cercados pelas pessoas que amam e ele está ali, novamente sozinho. Mesmo tendo alcançado muito mais do que ele sequer imaginou que poderia alcançar, ele nunca foi tão infeliz.

Felizmente o filme tem outras reviravoltas e Hassan encontra seu caminho. Ele volta para a cidade no interior da frança onde sua família e a mocinha por quem ele se apaixonou moram. Encontra uma maneira de balancear sua vida pessoal com sua ambição e paixão pela cozinha e decide encarar um novo desafio. O fato é que o filme e especialmente o Chef Hassan me fizeram pensar, bastante.

Me fizeram pensar que sonhar pode ser melhor do que de fato realizar os nossos sonhos. Quando a gente sonha a gente idealiza tudo e sequer cogita que ter algumas coisas vai, inevitavelmente, nos forçar a perder outras. Porque tínhamos o plano perfeito! Não é? E quão difícil é aceitar que talvez não fosse bem assim... Claro, todo processo é construtivo. Mas pode ser igualmente decepcionante se as expectativas são grandes demais.

Quanto maior o sonho mais difícil é aceitar que talvez esse ainda não fosse o patamar final, talvez fosse apenas mais um degrau. Obviamente nos ajudou a construir mais um pedacinho da escada. Mas como não se frustrar ao olhar pra baixo e ver todos os degraus que já te custaram tanto esforço? E como não se assustar ao olhar pra frente se deparar com o vazio? Com a necessidade de continuar construindo degraus... Então a gente sofre, as vezes até cogita desistir dessa escada. Desce algums degraus, senta e chora até o coração parar de doer e se recuperar do baque.
Mas eventualmente encontramos uma força que não sabiamos ter. Uma força que faz a gente levantar, respirar fundo e continuar. Então vai lá, sonha mais um pouco, constroi mais um degrau e assim vai aos poucos aprendendo a admirar e aproveitar o que cada degrau tem de melhor!

Freud classificou isso como a essência da vida. Essa constante e infindável busca de respostas para os nossos conflitos, internos e externos.
E ao solucionar um vem a necessidade de lidar com o próximo, e depois com o próximo e o próximo. É isso é o que nos impulsiona a viver. O que desperta nossas ambições e desejos. O que cria em nós a vontade de crescer e superar nossas limitações. Talvez por isso realizar nossos sonhos tão cedo ou ter tudo seja tão desconcertante.
Se acabarmos a escada cedo demais, chegaremos ao topo cedo demais e passaremos tempo demais ali. Entediados sem um novo desafio, sem estímulo algum.E isso não é viver... é na verdade o que Freud definiu como death drive. A tranquilidade resultante da ausência de conflitos. 

Precisamos do movimento, precisamos do conflito, da solução, da dor e da alegria! Nossa alma e nossa mente precisam dos altos e baixos que a escada nos trás. Precisam vivenciar todos os sentimentos que vem da escalada.

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