quarta-feira, julho 19, 2017

Maricota disse adeus.





Play it while you read :)
Photograph - Ed Sheeran


Maricota se olhou no espelho e se viu exatamente como há dois anos atrás. Seu rosto tinha essa expressão quase tranquila que convencia todos a sua volta de que ela tinha tudo sob controle e que ela estava certa de sua decisão. Mas em alguns momentos Maricota tinha certeza que um olhar mais atento veria claramente como ela de fato se sentia. 

Não é que ela estivesse pensando em mudar de idéia, não. Ela sabia que era hora de ir para casa, ela queria ir para casa. Mas ainda sim seu coração doía pensando no pedacinho dele que ficaria aqui. Maricota se sentia exausta de tentar acalmar sua mente e tentar se convencer de que tudo ficaria bem. Deprimida de pensar em adeus após adeus que ela daria em breve.

Não foi fácil decidir vir. Dizer até logo doeu muito. Porque Maricota sabia o quão incertas são as coisas, sabia que tudo poderia mudar, sabia que quando voltasse ela poderia não encontrar o que e quem deixou quando veio. Mas ela também sabia que era provável que quase tudo permanecesse igual. Havia também a certeza de que mais cedo ou mais tarde ela voltaria para casa. Maricota não era só feita de asas, ela também tinha raízes. Poucas alegrias se comparavam a alegria de um almoço de domingo com a sua família.

Mas decidir voltar fosse talvez mais dificil. Porque para voltar é necessário dizer adeus e não até logo. Dizer adeus a vida que ela havia construído alí a partir das suas escolhas. Ela tinha todo a responsabilidade e todo o mérito por cada detalhe dessa vida. Escolha após escolha ela foi moldando seu novo universo. 


Conheceu pessoas de culturas tão extremas a sua. E ao encontrar similaridades no meio de todo esse constraste, se sentiu encantada e decidiu chamá-los de amigos. Se viu trabalhando em lugares que nunca havia se imaginado até então. Aprendeu que não existe trabalho indigno ou trabalho que te faça melhor do que ninguém, também descobriu que dinheiro suado não é só uma expressão. Estudou assuntos complicadíssimos que não havia se atrevido a estudar nem em português, decidiu que era inteligente e capaz. Foi morar com uma família que não era sua, em um país que não era seu. Mas decidiu abrir seu coração e sua mente para as possibilidades e para aquelas pessoas. Decidiu amá-las mesmo sabendo que não seria para sempre. E quando foi chegando a hora de voltar Maricota foi percebendo que dizer adeus é diferente de dizer até logo.

Porque ela tinha certeza de que a partir do momento que ela dissesse adeus, essa vida nunca mais existiria. 


E por mais que Maricota tivesse consciência desde o começo que essa vida era uma vida provisória, com data de validade, isso não a impedia de sentir como se estivesse abandonando as pessoas que ela aprendeu a amar alí e até mesmo, uma parte de sí mesma que havia crescido ali. 

As ruas pelas quais ela andava todos os dias, o bares que ela frequentava, as pessoas as quais ela encontrava, as mudanças de estação que ela adorava ver, o pedacinho de gente que a havia cativado de uma maneira que ela não imaginava ser possível... todos os aspectos dessa vida seriam daquele momento em diante, memórias. 

Tantas memórias de amor, cheias de risos. Memórias de um choro contido, que doeram e ainda doiam. Memórias das aventuras vividas e dos dias que nunca terminaram. Memórias de um cheiro e da sensação de um último abraço. Memórias que construíram mais um capítulo da sua história. 

Entre uma lágrima e um riso, Maricota abriu sua caixinha de joias e colocou alí com todo cuidado todas essas memórias tão preciosas. Ela respirou fundo e então mais uma vez ela foi.


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