quinta-feira, fevereiro 16, 2017

Maricota e a perfeição plástica


Maricota andava pensando muito ultimamente. Pensava para onde devia ir daqui a 6 meses. Pensava o que gostaria de fazer e também sobre o ela que deveria fazer.

Quanto mais ela pensava mais possibilidades ela encontrava. Ela podia tentar a sorte na Itália, tentar aprender italiano e se deliciar com todas maravilhas da gula que lá existem. Podia voltar para o Brasil, voltar para o conforto de casa e da família e dar aulas de Inglês. Podia continuar onde estava, fazer mais alguns cursos, estudar mais Freud e entender mais coisas tão esclarecedoras quanto perturbadoras. Podia procurar um novo bico de final de semana pra ajudar com as viagens que ela ainda queria fazer. Ela podia... Podia? O que ela deveria fazer?

Maricota não conseguia parar de pensar se tanta indecisão não era um problema da sua geração, esse excesso de opção, esse exagero de possibilidades e toda essa exposição. Se a globalização fez tudo ficar mais confuso do que costumava ser. Ela via no feed do instagram uns amigos na Austrália outros nos EUA. Lia nos blogs sobre os bilionários de 20 e tantos anos. Via nos reality shows vidas perfeitas e cheias de glamour. Tudo parecia tão acessível...

Tudo era possível para quem de fato quisesse.

Era mesmo? Diziam que sim e faziam parecer que só não era feliz quem não queria ser. Porque afinal, as possibilidades estão todas ao alcance. Criavam então na Maricota, e em outras tantas pessoas, uma culpa sem tamanho. Uma frustração por viver uma vida "normal", por acordar sem rímel e mal humorada, por não saber de tudo, por chorar de raiva, por gostar de ficar em casa, pela simples necessidade de ser humano e pela sua individualidade.
Faziam parecer que qualquer escolha nunca seria boa o suficiente, há sempre algo melhor para se querer logo ali. A nova aspiração coletiva era a inalcançável perfeição plástica.
Era uma geração que viajava muito. Buscavam conhecer novas culturas. Maricota achava que buscavam na verdade um lugar que os fizesse sentir completos, pessoas que os fizessem sentir aceitos e mais uma chance de ser quem quisessem, talvez dessa vez conseguissem ser a pessoa certa.

E quando isso não acontecia e a viagem era apenas um lugar bonito com pessoas legais ou um lugar estranho com pessoas rudes, a solução era encontrar o ângulo e o filtro certo para postar no instagram. Fazer parecer que tudo foi ótimo fazia a frustração um pouco menor. 
Reprimir todo e qualquer sentimento e sorrir para foto. Fingir para os outros e para si. Fingir tanto, idealizar tanto...
Nunca uma geração foi tão conectada e ao mesmo tempo, tão isolada. Maricota odiava tanto tudo isso... Ela não conseguia entender como isso se tornou padrão, como isso começou a parecer natural. Porque todos aceitavam essa existência tão plástica? E de repente ela sabia a resposta. Porque é difícil sentir e é fácil ser plástico.

É difícil lidar com sentimentos e confrontar os nossos demônios internos. 
Então a gente "voa". 
Voa para escapar, voa pela incapacidade de enfrentar tudo o que é difícil e doloroso. É mais fácil e menos traumático reprimir os conflitos internos. Alienar tudo que não é prazeroso para evitar qualquer sofrimento.

A geração da Maricota voava muito e voava sem direção. Sorria muito nas fotos. Bebia muito para conseguir se divertir. Gastava em coisas que não queria para impressionar pessoas de quem não gostava. Se convencia de que se todo mundo fazia era o certo a se fazer. Tomava remédios para poder dormir e calar a consciência que dizia o contrário. Chorava muito sozinha no escuro quando o vazio a devorava.


É difícil fugir de si mesmo. 


Maricota sentia uma vontade imensa de ir contra o fluxo. Não aguentava mais voar. Queria pousar. Era da sua natureza sentir.

Ela andou descalça na grama, nadou no mar, riu de si mesma e dos seus erros, amou incondicionalmente, teve seu coração machucado, sentiu o cheiro da chuva, comeu sem culpa, chorou sem motivo e com motivo, cantou suas músicas favoritas, abraçou apertado e disse eu te amo, brincou com crianças e se sentiu uma delas. Se sentiu viva e inteira. Inteira com os vários pedaços do seu coração. Alguns bons, outros nem tanto. Alguns doíam, outros transbordavam alegria. Mas todos eram seus. 

Todos eram parte de quem ela era. E ela era uma pessoa única, perfeitamente não plástica. 


Um comentário :

  1. Perfeito!

    Amo as coisas que você escreve.
    Parabéns pelo texto incrível.

    Você tem blog pessoal?

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