quarta-feira, abril 19, 2017

A carta que ele nunca te enviou







Eu pensei em você ontem quando a primavera começou a dar as caras. Era o seu dia perfeito, ensolarado mas com aquela brisa gelada.

Eu pensei em todas as coisas que eu devia ter dito e não disse. Devia ter te contado que te deixar ir foi uma das coisas mais difíceis que eu tive que fazer. Ironicamente, foi também a melhor coisa que eu podia fazer por você. Eu juro que tentei te dar a melhor versão de mim, te dei tudo que eu podia. Mas nós dois sabiamos que o meu tudo não era nada do que você queria. E muito menos tudo que você precisava.

Então eu fui sumindo, porque eu não sabia como dizer adeus.Eu não queria um ponto final, precisava me agarrar naquela vaga idéia de que talvez com o tempo as coisas se ajeitassem. E mais do que tudo, eu precisava que você se agarrasse nessa idéia. Egoismo puro e retorcido. Mas eu torcia pra você não encontrar ninguém que pudesse te mostrar o quanto você poderia ser feliz. Queria que você nunca percebesse que eu era o cara errado pra você. Não queria que você notasse que eu não era nem metade do que você idealizava. Porque eu adorava a maneira como você me olhava. Como se eu fosse mesmo tudo aquilo... 

Você nunca veio me procurar e isso me doeu muito. Feriu o meu orgulho. Eu esperei que você tentasse mais uma vez, mesmo sabendo que você provavelmente não o faria. Eu queria que você tivesse me ligado, queria que me mandasse uma mensagem no meio da noite dizendo o quanto sentia minha falta. Porque eu senti a sua. Eu lembrei de você assistindo um filme, quase te mandei uma mensagem pra contar do meu dia de merda, quis te convidar pra ir naquele restaurante novo que abriu no bairro que a gente gosta. E eu nunca mais fui no nosso bar. 

Aqueles sofás viram tudo. O dia que a gente se conheceu e a noite que chegou sorrateira enquanto a gente ria e dividia histórias e espresso martinis. Nossos encontros no meio da semana, sem motivo maior do que a vontade de se ver que não aguentava o próximo sábado. Alguns beijos sem censura que constrangiam as pessoas a nossa volta. As conversas intermináveis que só cessavam quando as luzes se acendiam e o staff gentilmente nos pedia pra ir embora. Viram também a nossa primeira conversa séria, as lágrimas e o começo do fim.

Como eu poderia ir lá sem você? E finalmente, eu preciso fazer uso do maior dos clichês. O problema era eu e não você. 

Você não precisa pintar o cabelo ou se maquiar mais e usar salto alto. Não precisa emagrecer e mudar o jeito de se vestir. Não precisa ser menos sincera, mais controlada e menos intensa. O seu conjunto é perfeito. De alguma maneira você encontra balanço nessa personalidade que transborda. Sempre que você olhava pra mim me deixava embasbacado com essa capacidade de irradiar emoções... Você sabia, eu te disse mais de uma vez. O que você não sabe é o quanto me fazia sentir vulnerável. Como se você pudesse ver através de todas as barreiras que eu tentava construir. Eu precisava dessas barreiras porque eu adorava demais todas as suas esquisitisses. 

Não havia nada em você que eu quisesse mudar, nada em você que tenha me feito desistir de nós. Eu só não estava pronto pra ser parte desse conjunto de dois, era tão unitário, tão individual. Eu era eu demais pra caber em nós. E você nunca iria, e nem deveria, ser menos você pra abrir espaço pra mim. Não deveria se distorcer pra se moldar ao meu contorno irregular. Você não deveria ter que me ajudar a caber em nós.

Segui assim, você seguiu assim. Eu sendo eu, você sendo você. Nunca fomos, nunca seríamos, nós.

Instagram @brunatoriello

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