quinta-feira, agosto 14, 2014

Antes de ir




Ninguém me disse como seria, e eu não era tão viciada nesse blog aqui para saber o que me esperava. Eu ainda entrava no Orkut e nem lembro se já tinha uma conta no Facebook. Algumas madrugadas eu passei só na busca de comunidades de Au Pair para ver o que povo falava, o que contava, do que reclamava. E tinha de tudo e mais um pouco! Tinha o Muro das Lamentações, o Muro das Alegrias, tópicos para cuidar com famílias fake (oooh, help!) e por aí vai... 

Eu via quais as reclamações do povo e o que eles escreviam de coisas boas. Eu perdia mais tempo com as coisas boas. Eu sabia que coisas ruins poderiam acontecer, mas eu não queria pensar nelas, porque não e ponto. Quem procura acha, então se eu procurasse eu acabaria encontrando mil e uma razões para desistir de tudo antes mesmo de ter começado. E eu adoro desistir de coisas das quais eu canso de gostar ou acho que não podem ser divertidas.

Minha irmã foi viajar mês passado, para estudar lá-lá-lá longe daqui, por um ano e três meses, e minha mãe pediu para que eu conversasse com a bichinha para dizer para ela como seria o começo. E o começo seja lá do que for, não é fácil. Não é. Ao começar a trabalhar num lugar novo é tudo diferente, demora para se acostumar e saber das coisas. Ao começar um curso é todo mundo tímido e ninguém quer responder às perguntas, sempre tem aquele que não entende bulhufas e nem todos estão abertos a novas amizades. Agora, vamos experimentar fazer isso em outra cidade, que fica num país diferente em outro continente e, pra não ficar chato, com um outro idioma? Yaaay! Va-a-a-mos! 

Então, serei bem sincera com vocês, assim como eu fui/sou com a minha irmã:
1. Não vai ser fácil.
Se tu decidiste ir como Au Pair, saiba que Au Pair é trabalho, não são férias. Sim, você terá férias, leia direito, mas terá que trabalhar. Você cuidará de crianças, então terá que gostar delas. Um pouco de tarefas de casa, você também terá que fazer. Não, não é para deixar a casa brilhando de limpa, é para deixá-la organizada! Sabe essas tarefinhas que a tua mãe sempre te encheu o saco para que você fizesse em casa? Essas mesmas ;D

2. Vai ter saudade. E quer saber mais? Vai ter muita saudade!
“Mel, o que tu fazia quando tu ficava triste?”, minha mãe me perguntou esses dias, pra que ela pudesse dizer algo pra minha irmã. “Eu chorava”, eu disse. Eu também comprava chocolates, ia até um parque, não desgrudava das crianças e tentava passar o máximo possível de tempo com pessoas e, se não desse, eu ia lá no quintal falar com o coelho. Ocupar a mente com coisas boas. E existem coisas boas, acredite em mim.

3. A Família não é tua!
Mas tu pode acreditar que é! Minha mãe postiça chegou a escrever que eu seria a “Grösse Schwester” dos filhos dela; e talvez eu até tivesse sido pro menor dos três, mas não pros outros dois. De qualquer forma, eu fazia coisinhas que uma filha faria, e porque eu queria. Meu pai postiço uma vez pediu para o filho mais velho fazer um prato com queijo, salame e tomate pra ele jantar, pois ele estava com o pé quebrado e não podia andar muito; o filho reclamou e reclamou, então eu disse que faria. Todos me olharam surpresos, e meu pai postiço abriu um sorriso gigante! Fui lá e fiz o prato pra ele, porque é o que eu faria se fosse o meu pai. Eu tava lá na família, porque não agir como da família? O diálogo era super difícil com minha mãe postiça, mas eu não deixei de tentar por causa disso.
E eu indico este post sobre isso, porque eu o achei perfeito demais.

4. Tem família malvada por aí
E não, eu não quero te assustar. Só acho que tu precisas saber que isso existe. Eu tinha uma amiga que tinha que levantar às 06h, fazer café da manhã, levar a criança pra escola (enquanto os pais dormiam –cof,cof), depois fazer faxina na casa, e às vezes às 20h ela ainda tava cuidando da criança. E aos sábados ela só podia sair à tarde. Ouvi de uma outra menina que a família a fazia trabalhar das 06h até às 23h, com a desculpa de que a casa era grande e blá blá blá... Acho até que foi essa que trocou de família e, ao chegar na casa nova, ficou doente. Depois de uma semana internada no hospital ela desistiu de tudo e voltou pra casa e família de verdade dela. A idéia não é ser ruim assim. Trocar uma vida boa para ficar triste e ser mal tratada por gente que tu nem conhece? Não vale a pena, não.
Quer saber como escolher as famílias? Temos um post no blog nesse link aqui, e nesse outro.

5. Você vai ter vontade de esganar as crianças!
Mas não pode, tá? Vou escrever outra vez pra não ter dúvidas: não-pode!
Quando meu afilhado era pequeno eu dizia que iria trancá-lo no armário e jogar a chave fora. E ele morria de medo! Quando eu cuidei dos três alemãezinhos eu tive vontade de jogá-los no lago que tinha atrás da casa onde eu morava, mas eu não fiz isso. Criança irrita, o jeito é ter paciência e saber do que ela gosta para poder trabalhar nisso. No entanto, você também vai ter vontade de abraçar e não largar nunca mais. Certa noite eu levei o pequeno para dormir, cobri-o, li duas páginas do livro, dei boa noite e antes de sair do quarto, o pequeno me chama e me diz "Du hast etwas vergessen" (você esqueceu de algo), e eu, confusa, perguntei do que eu tinha esquecido, então ele apontou para as duas bochechas. Como não amar, diga-me?

6. Nem sempre vão te entender.
E não vão te entender por motivos bestas: a língua, óbvio, e porque são pessoas e pessoas são diferentes. Eu faço umas piadas bestas de vez em quando; tem gente que não gosta e tem gente que não entende. Eu falo com árvores, dou oi se algum pássaro aparece na minha frente e tenho certeza absoluta de que mesmo as coisas inanimadas têm algum tipo de vida. O idioma é diferente e, às vezes, uma palavra que tu acha que é igual a outra não é! E aí está feita a desgraça. Uma vez minha mãe postiça disse que me daria carona, e eu por ter adorado a ideia, perguntei “Wirklich?”, e ela me olhou estranhamente como se eu a tivesse ofendido. Então meu pai postiço entrou na jogada e explicou as coisas como deveriam ser. Eu queria ter perguntado “sério, de verdade?”, o que um simples “Echt?” faria. Wirklich em alemão tem o sentido de capacidade. Então é como se eu tivesse feito essa pergunta para ela “Você tem a capacidade de dirigir e me levar até lá?”. Não foi muito agradável.

7. Vai ter inveja e vão questionar a tua decisão
Tome banho de sal grosso e alecrim. As pessoas são invejosas, elas não vão te perguntar nada, vão só achar que a tua vida é perfeita, maravilhosa e querer acabar com isso porque é algo que elas julgam não poder ter. A reação das pessoas chega a ser hilária! Quando eu contei que seria Au Pair teve gente que duvidou. Achavam que eu era mimada e princesinha demais para ficar um ano inteiro longe de casa e 'me virando' por aí. Teve gente que me disse que eu não conseguiria, que era o tempo errado e a coisa errada para se fazer. Teve gente que ficou feliz. E também houveram amigos que não falavam comigo há muito tempo que ressurgiram (das trevas) me pedindo para trazer coisinhas. E os típicos comentários: "Cuidar de criança, é? Que sem graça!" É, pois é. Lembre-se que quem tá indo é tu, não são os donos desses comentários. A vida é tua e assim como eles fazem o que querem, tu também pode e deve fazer.

8. Ame-se!
Mas isso não é só antes de ser Au Pair, é pra sempre. Porque quando você sentir aquele 'ninguém me ama, ninguém me quer, o que eu vim fazer aqui?', o amor próprio e a confiança em ti é que vão te preencher. E é daí que tu vai ter forças pra continuar na maluquice. Fato é que tu vai ficar triste em qualquer lugar do mundo, nem que seja por dois segundos, aprenda a lidar com isso. Sabendo do que tu és capaz e se gostando já é um começo bem bom
Isso de encontrar a tampa da panela, a metade da laranja, eu acho tudo besteira. Se eu fosse uma panela, porque eu seria uma panela sem tampa? E se eu fosse uma frigideira nem faria falta, pois a frigideira nem precisa da tampa! E se eu fosse uma laranja eu seria inteira; aliás, laranja pela metade ou foi cortada ou é geneticamente modificada. E nenhuma seria literalmente uma laranja. A metade de uma laranja não é uma laranja, é a metade da laranja; e a modificada não é só laranja, é uma laranja modificada. Tá entendendo a minha lógica? Se tu quiser fazer algo, tu vai fazer; se tu não quiser, não vai fazer tão bem como se quisesse.

9. A despedida da volta também irá doer (talvez mais do que a despedida da ida)
Se tu tens bastante coisa por aqui e é feliz, a despedida da família e dos amigos será um pouco triste. "Um ano é muito tempo", vão dizer e vai ter choro. Minha prima me disse "eu vou te abraçar bem grande hoje porque vai demorar pra eu te ver outra vez". E ela tinha sete anos. Meu coração se apertou e eu me arrepiei inteira. Mas eu sabia que voltaria a vê-la. Nos meus últimos dias na Alemanha o guri menor disse que queria voltar comigo, e no meu último final de semana lá, uma amiga dele, se referindo a mim, disse "Nós ensinamos alemão pra ela, logo quando ela chegou. Lembra? Tu não sabia nem pedir pro C. voltar pra perto, e agora tu já vai embora..." E ali ficou um pedaço de mim. Eu não tinha certeza de que os veria outra vez. Fato é que nem todo mundo se apega a família ou às crianças, mas a probabilidade é grande e a saudade vai doer.
No blog temos este post que fala disso

10. Constatar que você é capaz é impagável.
O que tu viveste é teu e só teu, e isso ninguém te tira nunca.


Caraca, Mel, tanta coisa ruim, para que é que eu vou então?
Eu não quero desmotivar ninguém com o que escrevi aí em cima, mas são coisinhas que ninguém me disse antes de eu ir. Eu descobri sozinha. Você tem que ir para estar errada(o) e se corrigir. Errado em se encantar pela cidade errada, e descobrir que aquela outra - para a qual você nem dava bola - também é linda! Errado em achar que poderia não dar certo e descobrir que pode dar muito certo! Errado em achar que o seu inglês/alemão/espanhol/francês/finlandês não presta e que você nunca aprenderá essa maldita língua. Ou pra constatar que você está certo. Se for pra ir, vá por inteiro. Experimente sopa de tomate com berinjela e perca o último trem. Seja feliz até a barriga doer, aí tome água, descanse e faça tudo outra vez.
Vá para ver com os seus olhos, e se não gostar volte. Os aviões estão aí para voar. ;D


**excepcionalmente hoje posto no lugar da Camila Camargo. ;D

6 comentários :

  1. estou no processo de Match, e isso é algumas incertezas que eu tenho, mas quero ir, como disse meu pai: "Você tem o conforto da sua casa, para que vai sair e talvez se frustar?" e eu respondi: "Eu quero poder falar um dia que eu tentei e deu ou não certo, prefiro passar do que me frustar porque não tentei, e sobre o conforto da casa é disso que eu preciso, sair e ver como as coisas funcionam"
    Espero que seja tudo bom, estou orando e torcendo para conseguir uma família boa! todos os dias leio e acrescento meu intelecto e me preparo para quando eu for... Detalhe sou homem! e por isso pode ser que as coisas fiquem mais difíceis ou mais fáceis isso terei de descobrir lá

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  2. eu tive uma loooooonga jornada onde desisti no meio do caminho e retomei e, sim, é incrivel com o olho gordo de atrapalha! e como te questionam quando fala to indo, se eu tenho certeza, se não tenho medo...

    mas... sinceramente? se eu tiver tanto medo, NUNCA vou viver

    certeza de algo nunca penso que é 100%, mas é algo que eu acho que vale a pena arriscar, então estou jogando algumas coisas pro alto e indo!

    segunda estarei no training em NY e seja o deus quiser!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Lindo o post Mel, ameiii! Parabéns, concordo em gênero, grau e número. Beijão. ;***

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  5. Chorei. De verdade, lindo de ver, de ler, de sentir. Tô arrepiada.

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