sábado, outubro 26, 2013

Mas quem vai dizer tchau?




Muito antes de ser au pair, lá trás quando eu tinha apenas descoberto o programa e ficava em casa sonhando com o dia que eu teria pessoas pra chamar de host family e poderia comprar sanduíche no McDonalds por um dolar(!), um dos meus passatempos favoritos era ler de blog de au pair. Eu mal sabia, 2008 foi o ano dourado para ler blogs de au pairs. 

Por algum motivo, pelo menos pra mim, todas as meninas que eu lia tinham vidas interessantíssimas, não rolava moleza com a convivência em casa, mas ninguém nem falava de rematch. Tinham dias tristes, tinha homesick, tinha aventuras para ir em outra cidade ver coisa tal, tinha surpresas com a HF e tinha a parte de ir embora, que era doída como é hoje, mas elas pareciam aceitar melhor o fato de ir embora. Não quero dizer que todas as donas de blog do passado voltaram para o Brasil porque não, tem um bocado aqui, muitas delas eu acabei até conhecendo pessoalmente (e foi muito estranho sentir aquela coisa de fã e ídolo, ao mesmo tempo saber que elas são pessoas comuns como eu e você, mas que eu conhecia cada detalhe da vida delas, cada sentimento, cada idéia que foi registrada nos seus respectivos blogs).

Mas os tempos são outros (~nostalgia~), agora tem grupo no facebook para tudo e qualquer assunto que se relacione a au pair, tem um mundo de meninas que tem resposta para qualquer duvida que te ocorra, voce pode conhecer alguem da cidade para onde você vai num estalar de dedos, se duvidar, voce acha até gente que conhece sua futura host family... quem sabe até a atual au pair está no mesmo grupo que você?

O fato é que, de uns tempos pra cá, tem surgido o fenômeno de meninas que vem para o intercâmbio já com planos de ficar para sempre. Eu não vou ser hipócrita e dizer que não pensei nisso quando vim. Quando a gente tá no Brasil, pensando na vida que vai ter em solo americano, lógico que cogitamos a possibilidade de viver aqui pra sempre, viver as nossas vidas num cenário daqueles de filme que assistimos. Fora isso, ainda tem o fator independência -- já que todo o teu passado de pessoas e expectativas ficou pra trás no Brasil. 

Ou seja, atrativos pra ficar não faltam. Entretanto, ao meu ver, isso tem interferido bastante na dinâmica das au pairs e host families. Eu digo isso com conhecimento de casos, não é achismo ou generalização porque eu tambem sei de meninas que vieram com objetivos específicos e não vêem a hora de voltar pra casa. Mas é assustador o número de au pairs que pegou a primeira host family que viu pela frente para quando chegar aqui já pedir mudança de status para turista ou estudante, confiando que estar em solo americano iria resguardá-las de um "não". E a facilidade com a qual as pessoas aceitam ficar "ilegais" é ainda mais chocante. Não quero ofender quem optou por isso, muito menos quem não teve escolha. Mas o sentimento de que banalizaram a responsabilidade do que se veio fazer aqui é notável. Essa semana conheci duas meninas que chegaram aqui há QUATRO semanas, cadastradas em vários dating websites porque elas precisam casar ou comprar um Green Card até o fim do primeiro ano delas (ou até antes). MINHA GENTE. Eu me sinto até meio sem graça de continuar a conversa porque as coisas são tão obviamente erradas que eu não sei o que dizer.

Por outro lado, minha melhor amiga acabou de voltar para o Brasil. Tinha uma HF maravilhosa, amava as kids dela, recusou um pedido de casamento ano passado de alguém que ela amava, mas que mesmo com a pressão para ficar legalmente e sem preocupações, ela enxergou que não era a coisa certa a fazer, que eles não seriam felizes juntos. Agora, poucos meses para ir embora, ela achou alguem especial e que parecia gostar dela, mas ela sentia que ainda não era ele e não valia a pena ficar pelos motivos errados, se enganar e depois sofrer por algo que foi forçado e teve que acabar. E lá foi ela de volta para o Brasil. Com frio na barriga, mas sem medo. Até o Natal, mais outras duas grandes amigas estão voltando. Amigas de verdade, daquelas que você pode contar a qualquer hora, pessoas maravilhosas e que viveram o sonho de ser au pair com HF maravilhosas e kids que as amavam de verdade.

Daí que a equação fica difícil mesmo. As minhas amigas citadas aí em cima, elas sabiam das possibilidades de mudar de status e ficar mais uns meses, enrolar, achar alguem e tal, mas elas decidiram dar a cara a tapa e voltar com toda a sua bagagem cultural e emocional e tentar a vida onde elas são bem vindas e amadas, onde não precisa enlouquecer com visto, extrato bancário, prazo pra escola ou nada disso. E era isso que eu via nas meninas de antigamente. Elas de fato tinham abandonado uma vida no Brasil, desculpe, elas tinham pausado a vida delas no Brasil e sabiam que voltariam ao final do programa. O que eu queria dizer com isso é que eu acho que as pessoas que ficam são muito corajosas e precisam de muita determinação (não é só mudar o status, afinal!). Tive amiga que decidiu por esse caminho, viu meia dúzia ensinando como mudava o visto e achou que era só isso. Acabou se metendo numa encrenca horrível e voltou pro Brasil comprando passagem do próprio bolso dois meses depois.

Às que estão voltando, voluntária ou involuntariamente, boa sorte, foquem nos objetivos e só olhem pra trás para contemplar as boas memórias. Tenho vários exemplos de pessoas que voltaram obstinadas a conseguir metas X e Y, voltaram por esses motivos, e hoje não poderiam estar mais realizadas. A experiência de ser au pair não melhora apenas o teu inglês, ela te faz mais forte e confiante do que você mesmo pode imaginar. Ao voltar pra casa, leve consigo também esta parte da experiência, te garanto, vai fazer uma enorme diferença e te levar ainda mais longe no caminho que você escolher trilhar. E se nada der certo, tem um montão de grupos que te ajudam a voltar para os Estados Unidos numa boa. Ou quem sabe você vai tentar a Europa?
Mas dê uma chance ao Brasil, se dê uma chance de retomar os planos do passado, dê uma chance a si mesmo de ver o quanto você cresceu e o quão longe você pode chegar. 

Não se limite, é o que eu queria dizer. ;)



3 comentários:

  1. Post perfeito!

    Eu ainda não estou aí, mas estou me preparando para ir de cabeça e coração limpo - sem pensar se volto, mas sem pensar se fico. Quero pensar no meu 1 ano, como AuPair, aproveitando as experiências que terei com as kids, host family e a bagagem cultural. Depois, é só depois.

    Vi em uns grupos de AuPair meninas exatamente assim, querendo namorado pra não precisar voltar; querendo trocar de família porque a host fez isso e aquilo. Poxa, ninguém nunca trabalhou? Nunca teve um chefe difícil? EU acho que a tolerancia está menor, e o foco também. EU penso também que se vamos pausar nossa vida por 1 ou 2 anos para ser AUPAIR, temos que ir consciente que seremos AUPAIR e temos que respeitar nosso trabalho. Se aparecer outra coisa, ok. Mas, sem deixar o foco de lado.

    Um beijão,
    Aline.

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  2. Estou aqui há um mes e amo! Moro em DC area, que é maravilhosa, já conheci mais pessoas diferentes e interessantes em um mes do que conheci em toda minha vida! Já aprendi mais ingles em um mes do que em tres anos de yazigi no Brasil! Já tirei mais fotos nesse mes do que nas minhas últimas férias! Enfim, faço amizades, tenho momentos muito felizes e me dou bem com minha host family!! Maaaas sinto muita falta dos meus amigos de verdade e da minha familia! Ver meu pai e minha mãe se preocupando comigo e dizendo que sentem minha falta me coprta o coração e eu ja parei pra pensar : que diabos to fazendo aqui???? Por isso, não consigo pensar em estender, quanto menos ficar aqui pra sempre! Casar só pra ficar aqui? pq?? Minha vida é tão linda e feliz no Brasil!! =)

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  3. Anônimo12/11/13

    hipócritas, no fundo todo mundo quer ser feliz, constituir uma família seja onde for, se algumas pessoas querem perseguir o sonho nos EUA o nome disso é escolha. Cada pessoa traça suas metas e deve arcar com as consequências das escolhas. Ser au pair de coração puro é uma ironia, as esperanças e as expectativas existem, vc não vai para disperdiçar um ano ou ganhar dinheiro vc vai pelas possibilidades e pode ser qualquer uma. Não sou superior por julgar as escolhas, ser feliz é uma possibilidade mas também uma meta, qual escolha é mais assertiva ser feliz com um cara idiota que vc acredita amar ou construir a felicidade com alguém que te respeita e soma, acredito que estas sejam algumas justificativas, a liberdade de escolher é maior que o julgamento falso puritano

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